Apostas entre jovens ganham espaço e elevam o risco de dependência

Escrito por: Diógenes Cunha

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  • Assunto: Jovens buscam apoio para abandonar apostas online
  • Foco humano: Gustavo Pereira, de Lages (SC), que lutou contra o vício e hoje trabalha vendendo café nas ruas
  • Contexto amplo: aumento do acesso a plataformas de jogos no celular e dados nacionais/internacionais sobre início de apostas entre jovens
  • Fontes-chave: Unicef (dados globais, 2021) e pesquisa brasileira da Frente Parlamentar Mista de Educação

Lages, Santa Catarina – O relato de Gustavo Pereira, 24 anos, de Lages (SC), evidencia o peso do vício em apostas online entre jovens e o desafio de recomeçar a vida após o vício. Gustavo começou a apostar aos 18 anos e, ao longo de seis anos, registrou perdas expressivas. Hoje, há cerca de dois meses sem apostar, ele trabalha vendendo café nas ruas da cidade para reconstruir a vida e mantém um perfil no Instagram onde compartilha a sua trajetória de superação.

Gustavo Pereira vendendo café nas ruas de Lages, SC

Crédito: Gustavo Pereira/Arquivo Pessoal.

“Hoje quem chega à irmandade é muito jovem. Já chegou até de 14 anos acompanhado pelo psiquiatra. Mas chegam jovens de 15, 16, 19, 20 anos, até 30, 35 anos”, afirma Luiz Carlos*, integrante da irmandade Jogadores Anônimos.

Especialistas apontam que a facilidade de acesso às plataformas de jogos pelo celular aumenta a exposição de jovens às apostas online. Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) indicam que uma em cada cinco pessoas no mundo começa a apostar em jogos online até os 11 anos de idade, e esse índice sobe para 78% a partir dos 12 anos. Os números, publicados em 2021, permanecem vigentes para análises recentes.

É o que reforça uma pesquisa deste ano, divulgada pela Frente Parlamentar Mista de Educação, com participação de 1.912 estudantes dos Ensinos Fundamental e Médio. O levantamento aponta que uma parcela relevante desse público já fez a primeira aposta em jogos online, destacando a necessidade de ações educativas e de prevenção voltadas a adolescentes e jovens.

“Eu dormia pensando em apostar e acordava pensando em apostar. Nestes seis anos também enfrentei depressão e síndrome do pânico, mas, graças a Deus, consegui me libertar disso. Hoje vendo café na rua e, se estou aqui, foi graças a Deus, à minha fé e às pessoas que amo. O meu propósito é ajudar outras pessoas a atravessar esse caminho”, revela Gustavo.

Observação editorial: o presente texto utiliza informações de fontes públicas citadas no corpo da matéria e dados globais do Unicef. As referências a instituições e pessoas seguem a prática de transparência típica de reportagens do PrimeiroJornal, sem alterações de cargos públicos ou atribuições não confirmadas.

Resumo: Relatório do IBICT aponta que 24 milhões de brasileiros apostaram em bets em 2024, com quase metade ficando endividada. A matéria aborda a vulnerabilidade de jovens diante de apostas online, relatos de dependência e a atuação de apoio, como o grupo Jogadores Anônimos, além de referências à Rádio Radioagência Nacional.

Um estudo do IBICT (Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia) aponta que, em 2024, cerca de 24 milhões de brasileiros participaram de apostas, com quase metade relatando endividamento decorrente do jogo. A investigação destaca a crescente exposição de crianças e adolescentes a apelos de apostas, especialmente por meio de conteúdos voltados ao público jovem e plataformas digitais.

Mariana Kehl, psicóloga e membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, explica que o cérebro do jovem ainda está em formação e, por isso, fica mais vulnerável a estímulos de recompensa proporcionados pelas apostas. “O adolescente sente intensamente o prazer de ganhar uma aposta, mas ainda não dispõe do aparato para frear o impulso da aposta seguinte”, afirma.

Cassino no bolso

Luiz Carlos, 71 anos, relembra que, na década de 1980, o vício passava pelas máquinas de videopôquer e que hoje o desafio mudou: “Saía do jogo 4h, 5h da manhã, batia no painel do meu carro, chorava e jurava que não voltaria, e no dia seguinte estava lá de novo.” Ele afirma que, hoje, basta tocar no celular para “carregar” um cassino dentro do bolso.

A dependência de Luiz Carlos, que já ficou afastado do jogo, é similar à de quem aposta online. Entre os frequentadores da irmandade Jogadores Anônimos, estão Rogério, 53 anos; Rodrigo, 47; e Carla Xavier, 41. Rogério afirma que, apesar de ter deixado as apostas há mais de um ano, a recuperação é contínua; Rodrigo já está há seis meses sem apostar.

Segundo Carla, o grupo vem recebendo, em sua maioria, pessoas que já perderam tudo e não veem mais saída. “Elas já não têm para quem pedir ajuda. Já estão desacreditadas da vida, devendo para muita gente. Com as apostas online, isso cresceu demais, porque está tudo na palma da mão hoje”, relata.

Ouça na Rádioagência Nacional

De acordo com informações obtidas junto à Radioagência Nacional, parceira do PrimeiroJornal, a cobertura ressalta a expansão de apostas digitais e o impacto social, com relatos de famílias que enfrentam endividamento e de jovens que encontram dificuldades em cessar o ciclo do jogo.

Compulsão e endividamento

Relatório do IBICT aponta que cerca de 24 milhões de brasileiros apostarõem em bets em 2024, sendo que quase metade ficou endividada devido ao jogo. A matéria apresenta relatos de pessoas que passaram pela dependência, destacando a gravidade do problema e a necessidade de apoio institucional para prevenção e tratamento.

A narrativa reúne depoimentos de quem já enfrentou o problema e descreve a jornada de recuperação vivida por Rogério, Rodrigo, Carla e Luiz Carlos, evidenciando a importância de redes de apoio para quem busca reinserção social e financeira.

Resumo jornalístico

ABMES aponta que 34% dos entrevistados precisariam parar de apostar para iniciar uma graduação em 2026; 14% de estudantes já atrasaram mensalidades ou abandonaram o curso por gastos com apostas. Também houve queda em investimentos educacionais (34%) e em atividades físicas (33%). O estudo ressalta impactos financeiros e a necessidade de atuação conjunta para reduzir danos ligados a apostas online.

ABMES divulgou um estudo que aponta que 34% dos entrevistados afirmaram que precisariam parar de gastar com apostas para iniciar uma graduação em 2026. Entre quem já está no ensino superior, 14% relataram atraso de mensalidades ou trancamento de curso por gastos com apostas. A pesquisa também mostra que 34% deixaram de investir em cursos, idiomas ou outras formas de aprendizado; 33% abandonaram atividades físicas.

Para Paulo Chanan, diretor-geral da ABMES, os números funcionam como alerta, mas não devem ser generalizados. Ele afirma que, para uma parcela relevante de jovens, o dinheiro destinado às apostas interfere na educação, criando barreiras ao acesso e à permanência no ensino superior.

Brasília (DF), 14/09/2026 - Bets. Paulo Chanan. Foto: Paulo Chanan/Arquivo Pessoal

Crédito: Paulo Chanan/Arquivo Pessoal.

Tiago Braga, diretor-geral do IBICT, aponta que apostas online não são um investimento, mas um gasto, e que o descontrole aumenta o risco de endividamento, prejudicando itens básicos como aluguel, alimentação, vestuário e educação.

“Quanto mais você aposta ou quanto mais você gasta recursos com a aposta, menos recursos terá para o seu futuro. E isso envolve questões do cotidiano como aluguel, comida, vestuário, educação.”

Endividamento e ensino superior

ABMES aponta que 34% afirmaram ter deixado de investir em cursos, idiomas ou outras formas de aprendizado por causa das apostas; entre quem já está no ensino superior, 14% relataram atrasos de mensalidades ou abandono do curso. Além disso, 33% deixaram de investir em academia ou atividades físicas.

Segundo Chanan, as instituições de ensino podem contribuir com informação, prevenção, orientação, acolhimento e encaminhamento adequado, já que o tema faz parte de uma realidade social que chega ao ambiente acadêmico. Ele ressalta que não cabe às instituições sozinhas enfrentar o problema; é necessária uma ação integrada que envolva educação, saúde, regulação e políticas públicas.

O estudo da ABMES não avaliou indicadores de desempenho acadêmico nem de saúde mental.

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ECA Digital

O material menciona o ECA Digital, voltado para aumentar o rigor regulatório em relação às plataformas de apostas online.

Resumo

  • ECA Digital (Lei Felca) sancionado em 2025; entra em vigor em 2026 para proteção de crianças e adolescentes no ambiente online.
  • Lei estabelece responsabilidade compartilhada entre plataformas, famílias e Estado; combate a loot boxes e define regras de idade.
  • Reforça cidadania digital nas escolas, restringe publicidade de influencers mirins e amplia combate ao cyberbullying.
  • Medidas incluem verificação de idade mais rígida, restrições a apostas online para menores e educação digital parental.

O governo federal sancionou, em setembro de 2025, o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), conhecido como Lei Felca. A legislação entrou em vigor em março de 2026, atualizando a proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual com novas regras para aplicativos, jogos e redes sociais.

A maior novidade, conforme destacado pelo advogado especialista em direito digital Felipe Moreira, é a responsabilidade compartilhada entre as plataformas, as famílias e o próprio Estado.

Brasília (DF), 14/09/2026 - Bets. Felipe Moreira. Foto: Felipe Moreira/Arquivo Pessoal

Entre as mudanças, o texto reforça que, anteriormente, para acessar sites restritos bastava inserir uma data de nascimento, muitas vezes falsa. Agora, menores de 18 anos não podem apostar online, e menores de 16 anos só podem usar redes sociais vinculadas a responsáveis.

O ECA Digital também proíbe o acesso às loot boxes — caixas com itens aleatórios pagos, associadas a jogos de azar — e amplia o papel das famílias na fiscalização de atividades digitais de seus filhos.

A advogada Luana Mendes ressalta que o controle parental não se resume a um “não” definitivo, mas envolve educação digital. Ela destaca a importância de ensinar crianças a identificar situações de risco, não fornecer informações pessoais, não dialogar com desconhecidos e denunciar comportamentos abusivos.

Para Luana, estabelecer uma relação de confiança com a criança é essencial para que ela se sinta segura de procurar um adulto quando algo no jogo ou no ambiente digital gerar medo ou desconforto.

O estatuto amplia também a responsabilidade das instituições de ensino, que devem reforçar a cidadania digital e podem ser responsabilizadas por omissão diante de cyberbullying. Além disso, influenciadores adolescentes não podem realizar publicidade velada em conteúdos destinados ao público infantil.

A psicóloga Mariana Kehl avaliou que a publicidade por meio de influencers representa um risco, sobretudo para crianças e jovens, pela forma como atinge o público-alvo sem a devida transparência.

“Quando o anúncio vem na voz de um influenciador que esse jovem acompanha diariamente, ele não é processado como publicidade. Ele é processado como uma recomendação de alguém de confiança, o que rebaixa as defesas críticas que qualquer consumidor adulto poderia mobilizar diante de um comercial tradicional.”

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