Resumo: Fortaleza recebe debates sobre cannabis medicinal na 2ª edição da Febre de Arte, durante o II Enac. Avanços regulatórios são discutidos com foco na RDC 1.014 da Anvisa e na participação social. A Anvisa aponta 29 consultas, 47 trabalhos e 139 pesquisadores (41 do Brasil). WeCann Summit 2024 em Campinas aparece como marco, junto ao Mapa de Evidências da cannabis medicinal.
Fortaleza foi palco da 2ª edição da feira Febre de Arte, realizada nesta sexta-feira (18) durante o II Encontro Nordestino de Associações Canábicas (II ENAC). O debate abordou os avanços da regulamentação do uso de cannabis medicinal e os desafios de integrar cultivo, controle sanitário e agricultura familiar ao novo quadro regulatório, com foco na impotência de avanços apesar do reconhecimento oficial.
Representantes das associações destacaram a paralisação de debates e de avanços desde a publicação da RDC 1.014 da Anvisa, apontando dificuldade para que o setor projete rumos estáveis diante da atual conjuntura regulatória. Citaram ainda casos de apreensões de plantas utilizadas como insumos para medicamentos, que acentuam a incerteza entre produtores e pacientes.
O Maurício Gomes, diretor jurídico da Associação Canábica Florescer (Acaflor), com sede em João Pessoa, ressaltou o prazo de cinco anos para que as associações se adaptem ao novo cenário, destacando que o Judiciário tem transferido à Anvisa a definição de várias questões. “Quem está batendo na nossa porta não é a vigilância sanitária, é a polícia”, disse, enfatizando a tensão entre o movimento social e o aparato regulatório.
O Antonio Carlos Araújo Fraga, técnico da coordenação de vigilância sanitária do Ceará, alertou sobre a relutância de colegas em fiscalizar de forma efetiva e citou insegurança causada pela falta de subsídios para a atuação. Ele descreveu um vazio de orientações práticas diante do que chamou de jogo de empurra-empurra, ressaltando que “mesmo sem regulamentação, não vai se saber o que fazer”.
A Anvisa afirma ter garantido participação social no processo de elaboração das resoluções. Segundo a agência, foram realizadas 29 consultas com associações de pacientes e a comunidade científica, além de terem sido recebidos e considerados 47 trabalhos científicos de 139 pesquisadores, com 41 pesquisas brasileiras entre os materiais analisados.
Pesquisas relacionadas à cannabis medicinal aparecem em destaque com a WeCann Academy, rede internacional de especialistas e centro de formação que organizou, em 2024, o WeCann Summit, em Campinas, o maior Congresso de Medicina Endocanabinoide do mundo. A organização também consolidou quase 200 pesquisas no Mapa de Evidências da Cannabis Medicinal.
A comunidade canábica questiona os critérios de seleção dos materiais compilados no mapa de evidências, levantando dúvidas sobre a representatividade dos dados disponíveis e o peso dado a diferentes pesquisas no conjunto apresentado pela iniciativa.
Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Fortaleza — Resumo: Kaya Mind critica lacunas do marco regulatório da cannabis no Brasil, questionando o modelo de cultivo, quem pode cultivar e limites de THC, além de quando a regulamentação entrará em vigor. Painelistas destacam a dificuldade das autoridades em abranger todo o ecossistema canábico. O Anuário Cannabis Medicinal 2025 aponta 315 associações ativas, 27 hectares de cultivo e 873 mil pacientes, com 47 associações já com avanços judiciais para plantio. As discussões tratam de agricultura familiar, condições de trabalho, a Feira Febre de Arte no Centro Dragão do Mar e o ciclo regulatório da Anvisa com as RDCs 1.013/2026, 1.014/2026 e 1.015/2026, que tratam de autorização especial, sandbox regulatório e uso medicinal.
Segundo convidados da primeira fase, as lacunas decorrem da dificuldade de delimitar normas que abrendam todas as espécies de organizações do universo canábico, não apenas a indústria.
Para Akemy Viana Pinheiro, colaboradora da Acura, não há interesse por parte das associações em evitar o acompanhamento da produção e distribuição; ela defende que farmacêuticos e agrônomos se apoiem mutuamente e mantenham controle extremamente rigoroso dos medicamentos.
“Não é preciso só pela legislação, mas pelo paciente”, afirmou ela, citando a Resolução Nº 7/2026 do Conselho Federal de Farmácia, que determina como as funções da categoria podem contribuir para atender requisitos técnicos e padrões de qualidade.
De acordo com o anuário, o Instituto Tricomas, no Maranhão, busca facilitar o acesso a medicamentos à base de cannabis por meio da agricultura familiar regenerativa e de sistemas agroflorestais.
Outra linha de debate tratou das condições de trabalho das equipes das entidades. Isabela Luiza, porta-voz da Adapta, afirmou que as organizações defendem regularização integral, como qualquer outro prestador de serviço.
Entre os destaques nacionais, o Anuário Cannabis Medicinal 2025 registra 315 associações ativas, 27 hectares de cultivo e 47 associações com avanços judiciais para plantio; ao todo, 873 mil pacientes canábicos no Brasil.
A Feira Febre de Arte ocorre no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, com programação gratuita que vai da inovação à educação e à gastronomia. O evento é organizado conjuntamente pela Agência Liamba 360°, Ghost Produtora e BTO.
A RDC 1.013/2026 detalha a produção com Autorização Especial (AE) exclusivamente para pessoas jurídicas e define controles de segurança, com sanções para irregularidades. Produtos com THC acima de 0,3% devem ser importados com autorização prévia da Anvisa e atendimento às exigências da ONU.
A RDC 1.014/2026 institui um Sandbox Regulatória para associações de pacientes sem fins lucrativos, proibindo a comercialização de produtos e estabelecendo plano de monitoramento, indicadores, controle de qualidade e rastreabilidade.
A RDC 1.015/2026 atualiza o marco de fabricação e importação de produtos de cannabis, instituído pela RDC 327/2019, incluindo pacientes com doenças debilitantes graves (como fibromialgia e lúpus) no rol de autorizados a usar itens com THC acima de 0,2%, em formatos dermatológico, sublingual, bucal e inalatório.
A repórter viajou a convite da Agência Liamba 360°.

