CPMI pede indiciamento de dois líderes de igreja em Brasília por desvio milionário do INSS
A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito solicitou o indiciamento de Dogival José dos Santos e Lucineide dos Santos Oliveira, fundadores de igrejas em Brasília, ligados a um esquema que ficou conhecido como a Farra do INSS. O relatório aponta a atuação de uma rede criminosa familiar e religiosa que se utilizou de entidades de fachada para desviar recursos do Instituto Nacional do Seguro Social, com indícios de lavagem de dinheiro e de desvios estruturais no sistema previdenciário.
Segundo a CPMI, Dogival desempenhou papel central na liderança estratégica e operacional do núcleo familiar, articulando ações que transformaram entidades civis em instrumentos de arrecadação indevida e de circulação de recursos de origem ilícita. A investigação aponta que ele coordenou atividades que conectaram a AAB, a Associação dos Aposentados do Brasil, e o ITS, instituição de fachada usada para obter dados de segurados e movimentar ativos de forma irregular.
O relatório detalha que, no mesmo período em que a AAB passou a integrar o campo previdenciário, Dogival assumiu a presidência da entidade e impulsionou uma transformação que abriu caminho para a celebração de Acordos de Cooperação Técnica com o INSS. Essa manobra, segundo a CPMI, permitiu a implantação de descontos em benefícios sem autorização formal, gerando um fluxo financeiro que alimentou o núcleo familiar e seus aliados.
Entre 2019 e 2025, documentos de inteligência financeira indicam que Dogival atuou como um dos principais emissores e receptores de recursos da rede, realizando 353 depósitos que somaram R$ 741.370,58, todos endereçados a Lucineide dos Santos Oliveira. As transações foram descritas como parte de uma técnica de smurfing, utilizada para dificultar o rastreio bancário e a fiscalização.
A CPMI aponta que o casal Dogival e Lucineide organizou a gestão de recursos com o envolvimento do filho, Dogival José dos Santos Júnior, e do contador Samuel Chrisóstomo, utilizando estruturas de fachada para lavar o dinheiro desviado de benefícios previdenciários. A liderança ficava articulada por meio de empresas de fachada e de um conjunto de entidades ligadas ao ITS, consolidando a circulação de recursos ilícitos.
No caso de Lucineide, a CPMI a aponta como tesoureira da AAB e atuante no núcleo financeiro e administrativo da Conafer. A investigação descreve responsabilidade por gerenciar empresas de fachada, operacionalizar descontos indevidos e ocultar o proveito criminoso por meio de uma rede familiar e religiosa. A controladoria teria envolvido empresas sediadas em Recanto das Emas (DF) e o uso de estruturas sem funcionamento registrado para facilitar operações de descontrole financeiro, totalizando um repasse de aproximadamente R$ 141,87 milhões entre as entidades investigadas.
Entre os valores destacados, a CPMI cita transferências que reforçam a tese de engrenamento financeiro da organização. Lucineide transferiu cerca de R$ 40 mil, em 2024, para Pedro Alves Corrêa Neto, apontado como técnico essencial para facilitar processos das associações na DIRBEN/INSS. A movimentação de recursos também envolveu transferências de alto montante para empresas controladas pela rede, como R$ 9,5 milhões para a BSF Gestão em Saúde, R$ 5,94 milhões para BK Bank e uma operação de R$ 600 mil para o Auto Posto Topa Tudo, em Minas Gerais.
A apuração aponta ainda a aquisição de bens de luxo por Lucineide, com a compra de um Porsche Boxster 2023, uma Mitsubishi Triton 2024 e um VW T-Cross 2025, além do registro de veículos de terceiros em seu nome para ocultar o patrimônio. Tais indícios alimentam a conclusão de que a funcionária atuou de forma decisiva na engenharia financeira de desvios que atingiram aposentados e servidores públicos, exigindo responsabilização penal por organização criminosa e lavagem de dinheiro.
A investigação também traz à tona um elo entre a igreja ligada ao casal e a Conafer. A fachada da Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus, localizada no Recanto das Emas, foi retirada dias após o veículo da reportagem revelar que a instituição pertence a uma sociedade vinculada à AAB. No mesmo local, troncos de atuação exibem a coexistência de uma empresa ligada a Samuel Cristóstomo do Bomfim Júnior, contador da Conafer, o que reacende suspeitas de ligação entre as atividades religiosas, o aparato financeiro e as operações de fachada.
A remodelação de endereços e a operação de empresas sem atividade real reforçam a leitura de que a cidade de Brasília, com suas estruturas administrativas, serviu de palco para a montagem de uma rede complexa de desvio de recursos. A AAB e a Conafer compartilham a sede de um prédio no Setor Comercial Sul, que figura na relação de entidades sob análise de responsabilização por descontos ilegais em aposentadorias e pensões.
O jornal tentou contato com Dogival José dos Santos e com Lucineide dos Santos Oliveira, sem retorno até o fechamento desta edição. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações, conforme indicado pela CPMI. A apuração segue em andamento e envolve a verificação de documentos contábeis, transações financeiras e a dinâmica entre as entidades, as igrejas e as figuras envolvidas.
Galeria de imagens
A CPMI destaca que, apesar das investigações apontarem para uma rede complexa, o conjunto de evidências arroladas na investigação sustenta a necessidade de responsabilização penal para os envolvidos. A condução de estruturas em Brasília, somada a movimentações financeiras de alto valor, reforça a leitura de que houve desvio de recursos públicos de maior escala do que o esperado, com impactos diretos sobre aposentados e pensionistas.
Os próximos passos cabem às autoridades competentes para a continuidade das apurações, incluindo a análise de documentos contábeis, o rastreio de fluxos financeiros e a verificação das ligações entre entidades administrativas e religiosas. A cidade de Brasília permanece como palco de um caso que envolve religião, política, finanças e a saúde financeira de milhares de brasileiros.
Se você tem informações ou comentários sobre este caso, compartilhe suas opiniões abaixo. A participação da sociedade é essencial para compreender os impactos e as implicações dessas investigações na vida cotidiana da região e na integridade das instituições que atuam em defesa dos aposentados.
Este é um tema que exige acompanhamento permanente. A reportagem continuará acompanhando os desdobramentos e trará novas informações assim que forem tornadas públicas, buscando trazer clareza sobre as responsabilidades legais e as provas reunidas pelas autoridades.





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