Existem pessoas de rua brancas?

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-Papai, existem pessoas “de rua” brancas? Perguntou minha filha de 4 anos.

Desde que nascemos, passamos por um longo e incessante processo de aprendizagem. Aprendemos a não ver o que está bem na nossa cara. Talvez façamos isso porque é mais confortável, talvez porque é mais conveniente. Provavelmente é por puro egoísmo mesmo. Mas, uma criança atenta e não suficientemente treinada na hipocrisia dos adultos consegue perceber o óbvio. As ruas, as sinaleiras, as prisões estão cheias de pessoas negras. Os espaços de poder estão cheios de pessoas brancas.

Por mais esperta que seja, ela ainda não conseguiu notar outra ausência tanto nas sinaleiras quanto nos espaços de poder. Há 500 anos havia apenas povos indígenas onde foi erguida esta cidade, mas eles foram simplesmente exterminados. Todavia, uma coisa seu incipiente senso de justiça já aponta: é necessário fazer alguma coisa. Alguém precisa abrir os nossos olhos.

É precisamente para abrir os nossos olhos que existem as políticas afirmativas e em especial as cotas raciais. Não é para ajudar a pessoa negra ou indígena beneficiada, não é para fazer caridade, é para mudar a conformação social, para que não pareça natural tantos homens pretos pedindo esmola, é para que o branco não ache que bege é cor de pele. Para que o indígena se veja quando olhar para cima.
 
“Que culpa uma pessoa branca nascida no século XXI tem da escravidão do século XVIII ou dos assassinatos dos povos originários no século XVI? Por que ela será punida com perda da vaga?” Mas quem falou em culpa por aqui? Quem falou em punição? Se estivéssemos tratando de culpa pela escravidão, o tema seria direito penal e a pena seria cadeia. Cotas não sancionam ninguém. Ninguém perde qualquer vaga, porque, ao contrário do que também somos treinados a esquecer, nenhuma vaga jamais teve dono. A escolha de como se dará o provimento, quais os critérios, é totalmente política.

Há quem não goste do Dia da Consciência Negra, do Dia do Índio, quem pleiteie o Dia da Consciência Branca. Nós realmente precisamos que os brancos tenham consciência, mas aquela capacidade de raciocínio que as crianças têm e os adultos perdem: o reconhecimento de que são privilegiados. Também necessitamos urgentemente acabar com o Dia da Consciência Negra e o Dia do Índio, mas isso somente será possível quando os pretos, os pardos e os indígenas não precisarem mais desenvolver estratégias de sobrevivência e resistência. Até lá, vamos precisar de muitas políticas afirmativas, sem nenhuma cota de paciência para o racismo.

Rafson Ximenes é Defensor Público Geral do Estado da Bahia 
 

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