Crianças queimadas vivas: relembre a barbárie da maior chacina do DF

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Há mais de um ano, 10 pessoas da mesma família eram assassinadas na maior chacina do Distrito Federal. Na última semana, o Tribunal de Justiça (TJDFT) decidiu mandar para júri popular quatro dos cinco réus acusados pelo crime. Na decisão, o juiz relembra detalhes chocantes sobre a causa da morte das vítimas.

Serão julgados Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, Carlomam dos Santos Nogueira e Carlos Henrique Alves da Silva. Ainda não há data para o júri dos acusados, uma vez que as defesas ainda podem recorrer da decisão.

O quinto acusado, Fabrício Silva Canhedo, está em um um processo separado. A Justiça ainda não decidiu se ele irá a júri popular.

A decisão do juiz Taciano Vogado traz os resultados dos laudos do Instituto de Medicina Legal (IML) das vítimas.

Relembre quem são os envolvidos:

Mortes De acordo com os laudos, Elizamar da Silva morreu por possível asfixia mecânica e teve o corpo carbonizado em seguida. Já os três filhos dela, Rafael, 6 anos; Rafaela, 6; e Gabriel, 7, morreram “em consequência das lesões causadas pelo fogo”. Os três respiraram fumaça. Os corpos de Elizamar e dos filhos estavam dentro do carro da cabeleireira, encontrado em uma via do DF, carbonizado.

O laudo cadavérico de Marcos concluiu que ele morreu por um disparo de arma de fogo na cabeça. O corpo foi decapitado e esquartejado. Já no corpo de Thiago havia sinais de amarração nos membros superiores e inferiores, e a causa da morte foi asfixia por sufocação direta, que ocorre quando as vias respiratórios são obstruídas.

No corpo de Cláudia também havia sinais de amarração nos membros superiores e inferiores. Segundo o exame, a causa da morte foi hipovolemia por esgorjamento — quando há grande perda de sangue devido a um corte na região lateral do pescoço. Ana Beatriz morreu da mesma forma.

Já em relação a Renata e Gabriela, os peritos não conseguiram determinar a causa da morte, porque os corpos estavam muito carbonizados.

Segundo a investigação da polícia, em 18 dias, Gideon Batista de Menezes, Horácio Carlos Ferreira, Fabrício Silva Canhedo, Carlomam dos Santos Nogueira e Carlos Henrique Alves assassinaram as 10 pessoas. O crime também teve a participação de um adolescente.

Ganância e ódio O interesse dos autores pela propriedade da família foi o que motivou os crimes, segundo o Ministério Público (MPDFT). Avaliado em R$ 2 milhões, o terreno no Itapoã tem cachoeira privativa, ampla área de capim de gado e cerca de 5 hectares – equivalentes a 50 mil metros quadrados.

Veja fotos da chácara que teria motivado chacina O plano, então, era assassinar toda a família para tomar posse do imóvel, sem deixar qualquer herdeiro vivo.

O terreno, no entanto, nem pertencia à vítima, o patriarca da família, Marcos Antônio Lopes de Oliveira, o primeiro a ser assassinado. A chácara é alvo de disputa judicial desde 2020, na qual os verdadeiros donos tentam recuperar o terreno.

O crime foi meticulosamente planejado. Em 23 de outubro, os acusados alugaram o cativeiro, em Planaltina, onde manteriam as vítimas reféns.

Linha do tempo: as últimas horas de uma família Em 28 de dezembro, os criminosos simularam um assalto à chácara, Marcos reagiu e Carlomam deu um tiro na nuca do homem. Na emboscada, a esposa de Marcos, Renata Juliene Belchior, e a filha, Gabriela Belchior de Oliveira, também foram capturadas.

Os três foram levados ao cativeiro e, no local, Marcos foi esquartejado ainda vivo no chão da cozinha. Ele foi enterrado em uma cova rasa no terreno.

Durante a madrugada, o adolescente testemunhou a brutalidade, entrou em pânico, pulou o muro da casa e fugiu. Por duas semanas, as duas vítimas ficaram presas vendadas no cativeiro.

Inquérito concluído: veja em detalhes a cronologia da maior chacina do DF Nesse tempo, os criminosos usaram os celulares para despistar amigos e namorados, enviando mensagens para eles. As mensagens não seguiam o padrão que Gabriela costumava mandar para o rapaz com quem mantinha um relacionamento, por exemplo, e, por isso foram levantadas várias dúvidas quanto ao que estava ocorrendo. Em 4 de janeiro, os criminosos enviaram uma mensagem do celular de Marcos para Cláudia Regina Marques de Oliveira, com quem já teve um relacionamento e uma filha, Ana Beatriz Marques de Oliveira. Os bandidos fingiram ser o homem e avisaram que Gideon, Horácio e Fabrício a ajudariam a fazer a mudança para uma casa nova.

Quando Cláudia e Ana Beatriz entraram no local marcado, foram rendidas por Carlomam, enquanto os outros fingiam ser vítimas também. Rendidas, as duas foram levadas ao cativeiro. Renata e Gabriela ficaram em um cômodo e Cláudia e Ana, no outro.

Em 12 de janeiro, os criminosos enviam uma mensagem do celular de Marcos para o filho dele, Thiago Gabriel Belchior. Eles fingiram ser o homem e pediram ao rapaz que passasse na chácara do Itapoã com a mulher, Elizamar da Silva e os três filhos: um de 7 anos e os dois gêmeos, de 6. Ao chegar ao local, o homem acabou rendido pelos bandidos.

Às 23h, Elizamar chegou ao condomínio de Renata para encontrar o marido, Thiago. Ela foi rendida pelos bandidos. Os criminosos levaram a cabeleireira e os três filhos dela para Cristalina (GO), onde asfixiaram as vítimas e queimaram o carro de Elizamar. Thiago foi levado para o cativeiro.

De madrugada, a polícia encontrou o carro da cabeleireira, um Clio cinza, carbonizado com quatro corpos dentro. Dias depois, os investigadores confirmam que os restos encontrados eram de Elizamar e de seus três filhos mais novos. Em depoimento, Gideon chegou a dizer que não foi fácil matar Elizamar porque “ela se debateu”.

Em 13 de janeiro, os bandidos obrigam Renata a enviar um áudio ao grupo de WhatsApp da família informando que estava em uma vaquejada com a filha e o marido, e que só deve voltar no sábado.

O objetivo era despistar que estivessem desaparecidas Os criminosos teriam dito que, no dia seguinte, Renata e Gabriela seriam liberadas.

Apenas na manhã de 14 de janeiro o filho mais velho de Elizamar fez o boletim de ocorrência informando o desaparecimento da mãe e dos três irmãos.

No mesmo dia, Renata e Gabriela foram levadas até Unaí, quando Gideon as asfixiou com cintos de segurança. Horácio jogou gasolina e ateou fogo no carro, mas Gideon estava muito perto das vítimas no momento em que o incêndio começou e, por isso, estava com marcas de queimadura quando foi preso. Esse é o segundo carro carbonizado para evitar que o corpo fosse encontrado.

Em 15 de janeiro, Thiago, Cláudia e Ana saíram do cativeiro ainda vivos, mas foram esfaqueados na área próxima à cisterna, onde seus corpos foram deixados, em Planaltina.

No mesmo dia, a irmã de Renata fez o boletim informando o desaparecimento da irmã, do cunhado, Marcos e dos sobrinhos Thiago e Gabriela. De acordo com o depoimento, a mulher tentou por dois dias contato com os parentes por meio de ligações e mensagens, mas não obteve resposta.

Na madrugada de 16 de janeiro, a polícia encontrou o segundo carro carbonizado com duas pessoas dentro. O automóvel era um Siena branco no nome de Marcos Antônio. Dias depois, os peritos identificaram os corpos como de Renata e Gabriela. Até esse momento, Marcos era apontado como um dos suspeitos do caso.

No mesmo dia, familiares registraram o desaparecimento de Cláudia Regina de Oliveira de Ana Beatriz de Oliveira. Elas já tinham sido sequestradas em 4 de janeiro e assassinadas.

Início das prisões As investigações tiveram início e foram identificados dois suspeitos: Gideon Batista e Horácio Carlos. Em 17 de janeiro, a polícia encontrou Gideon. A suspeitas aumentaram porque o homem apresentava lesões de queimadura nas mãos e tinha grande quantia de dinheiro e um veículo que seria de Ana Beatriz.

Horácio foi localizado fazendo um serviço de mecânica em um carro na rua. Com as investigações, Fabrício foi apontado como um terceiro envolvido na trama, que foi localizado com o carro de Cláudia.

A polícia chegou ao cativeiro alugado pelos criminosos. No local, os investigadores encontraram documentos e objetos pessoais de todos os desaparecidos: diversos aparelhos celulares, uma mochila com notebook, roupas femininas, entre outros.

No primeiro depoimento, os acusados apontaram que as mortes da família tinham sido encomendadas por Thiago e Marcos. “É um caso que gerou comentários em toda comunidade”, declarou o promotor de Justiça Nathan Neto, responsável pelo caso pelo MPDFT. “São teses que são levantadas, são pré-julgamentos estabelecidos. Eu me lembro que uma das vítimas foi inclusive colocada como suspeito”, completou.

Dez mortos na mesma família: a maior chacina da história do DF No dia seguinte, os cães farejadores do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal (CBMDF) encontraram um corpo do sexo masculino desmembrado no local que serviu de cativeiro. Dias depois eles confirmam que o corpo era de Marcos, causando uma reviravolta nas investigações.

Em 22 de janeiro, a polícia encontrou no cativeiro e no carro impressões digitais de um quarto suspeito, Carlomam dos Santos Nogueira – integrante da facção Primeiro Comando da Capital. Ele ficou foragido por três dias até se apresentar à delegacia.

Em 24 de janeiro, a PCDF descobriu mais três corpos na cisterna de uma casa abandonada a cerca de 5km do cativeiro onde as vítimas foram mantidas reféns.

Em menos de 24 horas, investigadores identificam que eram as três vítimas até então desaparecidas: Cláudia Regina Marques de Oliveira, Ana Beatriz Marques de Oliveira e Thiago Gabriel Belchior.

Em 26 de janeiro, a polícia chega ao quinto envolvido no crime: Carlos Henrique Alves da Silva, que tentou fugir pelo telhado.

O MPDFT denunciou, em fevereiro, cinco pessoas pelo envolvimento na maior chacina registrada na capital do país. No mesmo mês, a Justiça aceitou a denúncia e todos eles viraram réus.

O adolescente foi julgado e recebeu pena máxima permitida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente, que é a detenção por tempo indeterminado por até três anos.

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