Festival Melodya em Brasília gera debate sobre representatividade na música negra
No fim de semana, o Festival Melodya, que integra o Festival de Música Negra, despertou críticas por apresentar uma maioria de artistas não negros entre as atrações. O público em Ceilândia, no Distrito Federal, reagiu com indignação ao constatar a ausência de vozes negras na lista de artistas, mesmo sendo o Melodya parte de uma programação associada à cultura negra da cidade. O evento ocorreu entre 24 e 26 de maio na Praça da Bíblia, reunindo nomes reconhecidos nacionalmente, como Melody, Paula Guilherme, Jhey, Matheuzim e Lucas Beat.





R$ 700 mil de fomento deram o suporte financeiro ao Melodya, gerido pela Associação Brasiliense de Promoção à Cultura, Diversidade e Formação do DF (ABC-DF). O recurso vem da Política Nacional Aldir Blanc (Pnab), criada em 2022 pelo governo federal para ampliar o aporte à cultura local. Em maio de 2025, o festival foi habilitado na lista final do edital da Pnab, no eixo que atende festivais e mostras locais de música voltados para pessoas negras.
A ABC-DF afirmou que o espaço da grade de programação possuía grande espaço ocioso e que não dispunha de recursos para contratar artistas locais. A produção explicou que firmou uma parceria com uma produtora externa ao DF para trazer atrações previamente vinculadas a artistas da região, resultado na origem do Melodya como um empreendimento colaborativo com atuação fora do eixo local.
Apesar da presença de seis grupos negros na programação do Festival de Música Negra, o Melodya foi alvo de críticas de quem acompanha o movimento. May, produtora cultural que atua com projetos como SintoSoul, AfroKinda e Black Beats DF, descreveu a situação como “muito contraditória” e questionou a representatividade no line-up. Em sua visão, o debate não deve se reduzir a escolher artistas apenas pelo tema, mas exigir coerência na prática e na oportunidade de protagonismo dentro da própria cidade.
Em resposta, representantes da ABC-DF enfatizaram que a parceria com uma produtora externa foi necessária para preencher a grade de programação, dada a indisponibilidade de recursos para contratação de artistas locais. A instituição destacou ainda que houve uma seleção de artistas negros da cidade — entre eles DJ Chokolaty, Saphira, Makéna, Canto das Pretas, Samba da Guariba e Café com Samba —, porém não informou a produtora parceira responsável pela contratação externa.
A polêmica acende o debate sobre representatividade na cidade. Para May, representar não é apenas usar a temática negra como rótulo, mas assegurar que os protagonistas da cultura tenham espaço, visibilidade e acesso aos recursos necessários. A discussão aponta para uma necessidade de equilíbrio entre promoção de ações temáticas e a garantia de participação efetiva de artistas locais na cena cultural do DF.
Ao final, a produção do Melodya reforçou a ideia de que a parceria permitiu realizar um evento que, mesmo sob críticas, trouxe à tona artistas com reconhecimento nacional e mostrou a força da música negra na região. O comprimento da programação e as escolhas artísticas, no entanto, continuam gerando espaço para debate público, especialmente entre moradores que esperam mais representatividade e oportunidades para a cidade avançar nesse setor criativo.
O que você achou da curadoria do Melodya? A cidade está avançando na diversidade de vozes na música negra ou ainda há passos importantes a serem dados? Deixe sua opinião nos comentários e participe da conversa sobre representatividade, cultura local e acesso a recursos para artistas da nossa região.

