Cenário prospectivo de inflação se tornou mais ‘desafiador’, diz presidente do Banco Central

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O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, destacou nesta quarta-feira (15), que tem se observado a manutenção da trajetória de desinflação da inflação cheia ao consumidor. Segundo ele, os indicadores macroeconômicos seguem consistentes com um cenário de resiliência. “Em relação ao comportamento da inflação, observa-se a manutenção da trajetória de desinflação da inflação cheia ao consumidor”, disse durante a Conferência Anual do Banco Central do Brasil, em Brasília. Ele acrescentou, ainda, que o cenário prospectivo para a inflação se tornou mais “desafiador”.

De acordo com Campos Neto, os dados referentes à inflação corrente se mostraram benignos, tanto na inflação cheia quanto nos núcleos de inflação. No entanto, ele ressaltou que, após uma sequência de surpresas altistas, notou-se arrefecimento dos núcleos de inflação, embora sigam em níveis acima da meta. “Apesar disso, há preocupação com a inflação de alimentos no curto prazo e com o papel da inflação de serviços”, considerou Campos Neto. Ele disse que as inundações no Rio Grande do Sul, além dos seus impactos humanitários, terão desdobramentos econômicos que requerem acompanhamento.

O presidente do BC citou que há também um debate sobre a possível transmissão do aperto verificado no mercado de trabalho para salários e preços, especialmente a inflação de serviços, e seus impactos na trajetória prospectiva de inflação. “Uma evidência preliminar é a inflação nos serviços intensivos em trabalho, que tem se mostrado persistentemente acima do nível compatível com o cumprimento da meta”, disse. “Nossa avaliação é que o cenário prospectivo de inflação se tornou mais desafiador, com o aumento das projeções de inflação de médio prazo, mesmo condicionadas em uma taxa de juros mais elevada”, continuou.

Campos Neto comentou também que há surpresas benignas no período recente, mas também elevação das projeções de prazos mais curtos, envolvendo preços livres e administrados. “Além disso, as expectativas de inflação dos agentes de mercado permanecem desancoradas”, evidenciou, enfatizando que as projeções para 2024 e 2025, assim como as inflações implícitas, mostraram piora nas últimas leituras.

O BC também tem acompanhado os desenvolvimentos recentes da política fiscal e seus impactos sobre a política monetária, segundo ele. “O BC reafirma que uma política fiscal crível e comprometida com a sustentabilidade da dívida contribui para a ancoragem das expectativas de inflação e para a redução dos prêmios de risco dos ativos financeiros, consequentemente impactando a política monetária.”

Assim como já estava na ata do Copom publicada na terça-feira (14), Campos Neto ressaltou que, ainda que as projeções de resultado primário e de trajetória da dívida não tenham se alterado significativamente, observou-se, no período recente, um aumento do prêmio de risco e uma percepção de piora da situação fiscal, de acordo com os agentes que respondem o Questionário Pré-Copom.

O presidente do BC disse que, em sua última reunião, o Comitê de Política Monetária (Copom) debateu possíveis motivos da recente desancoragem das expectativas de inflação, listando como principais fatores: a piora do cenário externo; os recentes anúncios de política fiscal; e a percepção de agentes econômicos acerca do compromisso da autoridade monetária com o atingimento da meta ao longo dos anos.

“De forma mais relevante, o Copom unanimemente avalia que se deve perseguir a reancoragem das expectativas de inflação independentemente de quais sejam as fontes por trás da desancoragem ora observada”, afirmou Campos Neto. E acrescentou que essa reancoragem é vista como elemento essencial para assegurar a convergência da inflação para a meta.

Meta de inflação

O presidente do Banco Central disse ainda que, em política monetária, não deve haver discussão sobre centro ou banda da meta de inflação. “O debate de política monetária não deveria falar de centro e banda, nossa meta é 3% e deveríamos perseguí-la”, afirmou. Ele destacou um momento específico da sua fala para fazer apontamentos sobre a última decisão do Copom, que decidiu diminuir o ritmo de corte da Selic e reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual, de 10,75% para 10,50% ao ano.

Ele explicou que a ata, divulgada na terça-feira (14), mencionava as condicionantes para o guidance – em março, o colegiado havia indicado que continuaria com o corte de meio ponto porcentual, o que acabou não ocorrendo diante das mudanças de cenário. “O debate (na reunião do Copom) foi sobre a validação dos condicionantes, a graduação”, disse. Campos Neto pontuou que, no cenário externo, houve o entendimento de que a taxa terminal havia piorado e que no âmbito doméstico, há risco de elevação da inflação de alimentos e também pressão por causa do petróleo.

Campos Neto observou que as expectativas, implícitas e as registradas no relatório Focus, vinham piorando. “Decidimos reconhecer que as expectativas estavam desacordadas, e não com ancoragem parcial”, disse. Além dos debates sobre elevação de risco na parte longa da curva de juros, também foram observados pontos sobre a credibilidade do arcabouço fiscal e os impactos na política monetário.

Ele reiterou que o debate no Copom foi centrado em argumentos técnicos e que o entendimento da maioria do colegiado é de que as alterações no cenário foram relevantes para reduzir o ritmo de cortes. Ele acrescentou, ainda, que havia integrantes do grupo que viram motivos para modificar o balanço de riscos do Copom – o que acabou não ocorrendo.

O presidente do BC também reforçou que a reancoragem das expectativas é vista como elemento essencial para convergência da inflação à meta e que o Copom concluiu unanimemente pela necessidade de uma política monetária mais contracionista e cautelosa.

*Com informações do Estadão Conteúdo

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